A pressão por redução de custos em saúde é real e legítima. O problema começa quando essa pressão se traduz em escolher fornecedores exclusivamente pelo preço unitário, porque o resultado quase sempre gera custos maiores em outras frentes, justamente aquelas que não aparecem na planilha de compras. No fornecimento de medicamentos especiais, isso é ainda mais evidente, já que o impacto de uma falha não é apenas financeiro: pode comprometer a continuidade do tratamento e a segurança do paciente. Por isso, entender o custo total do fornecimento, e não apenas o preço da linha do pedido, é o que separa uma gestão de compras estratégica de uma gestão puramente transacional.

Boa parte desses custos ocultos aparece no dia a dia da própria equipe. Quando um fornecedor entrega com erro, atrasa ou envia o produto com documentação incompleta, alguém precisa parar para resolver: abrir ocorrência, negociar a reposição, atualizar registros e comunicar as áreas clínicas sobre a indisponibilidade. Cada um desses passos consome tempo, e tempo tem custo. Em produtos de alta complexidade, aliás, a conta pode ser ainda mais alta: uma ruptura de estoque vai muito além do tempo da equipe, podendo exigir uma compra emergencial a preço maior, atrasar um protocolo clínico já iniciado ou até gerar um pedido judicial de fornecimento, um impacto que costuma superar em muito a economia obtida na negociação original.

A esses custos soma-se uma dimensão que muitas vezes passa despercebida: o risco regulatório. Fornecedores com regularidade documental questionável colocam a instituição compradora em uma posição vulnerável. Comprar de um distribuidor sem AFE ativa, sem licença sanitária válida ou com rastreabilidade deficiente pode gerar questionamentos em inspeção sanitária, com consequências que vão muito além do preço do produto.

No fim, porém, o argumento mais forte é clínico. Medicamentos especiais de uso contínuo não têm substituto imediato, e a interrupção de um tratamento oncológico, imunológico ou de nutrição clínica por falha de abastecimento tem impacto real sobre o paciente. Esse impacto não cabe em uma planilha de custos, mas é exatamente ele que justifica a escolha de um fornecedor que cobra um pouco mais e entrega com muito mais segurança.

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